Arquitetura

05/07/2009

O décimo mandamento de Constanza Pascolato é o seguinte:

Simplificar a vida é preciso. E simplificar a vida, entre outras decisões, significa ter coragem de deixar para trás as pessoas que não combinam mais com você.

Ando com uma dificuldade imensa de deixar para trás. É como quando você mora durante anos numa casa e de repente é despejada de lá. Não é só o simples fato de recolher as lembranças, botar numa mala, fechar uma porta e sair. É o apego a cada pedacinho dali. Ao azulejo quebrado do banheiro, àquela mancha de molho de tomate que pregou no teto da cozinha, são as figuras que você descobre nos desenhos dos tacos no chão. Não é de uma hora pra outra que a gente esquece e vai morar na outra casa. Não interessa se a outra casa é maior, mais arejada, mais bonita. Não interessa.

E quando a gente é despejada várias coisas podem acontecer.

Você pode encontrar rapidamente outra casa. E isso inclui a sorte de ser uma casa agradável ou uma casa péssima. E ai é outro tombo da escada. Despejo de novo. Você acaba encontrando as infiltrações, seus vizinhos são barulhentos, o ralo da cozinha vive entupido. Mesmo assim persiste, é isso o que todo mundo manda você fazer. Mas mesmo assim você é despejada. Não importa.

Você pode ficar morando na rua também. Aproveitar a liberdade de passar tardes a vagar por ai, degustar a incerteza de cada dia. Mas isso não é pra mim.

Eu andei vivendo por um tempo num lugar que era parecido com uma pensão. Não tinha ordem, não tinha certezas. De vez em quando eu estava no quarto mais bonito, mas em compensação morei durante muito tempo num porão úmido, frio. E vi várias entrando e saindo do quarto bonito, e mesmo que eu tentasse, não conseguia fugir do porão, porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde seria a minha vez de subir de novo. E como era bom estar no quarto bonito… Mas mesmo sobrevivendo a essa tormenta, fui despejada. Dessa vez, creio que é para sempre. Desconfio que não deva, inclusive, nem passar na calçada daquela casa que eu gostei tanto.

Meio aos trancos e barrancos cato minhas coisinhas e sigo. E resolvi parar de procurar casas pra morar, isso é doído demais, sai caro demais. Construo minha própria casa. Cuido do jardim todo dia, pra que ele atraia bichinhos bons, mesmo sabendo que de vez em quando aparecem pragas. Deixo o espaço aconchegante, quieto, na medida certa. Deixo como eu gosto, cuido para que esteja sempre bela, mesmo com poeira nos cantinhos.

As vezes me dizem que deixo a porta aberta demais, que pode entrar alguém mal intencionado na minha casa. Eu não consigo essa medida. Por anos deixei a porta trancada, com medo de tudo. Foi duro abrir a porta assim. E agora dizem que está aberta demais… Mas tem uma coisa que não sei como será. A acessibilidade da minha casa daqui pra frente. Muros, portões, cercas… Quanto a isso não tenho controle. Mesmo. O medo faz com que eu queira construir um muro sem acesso, ninguém mais entra. Fico eu aqui dentro com as minhas coisas, me acostumo com essa situação e aceito ser um casal de uma só.

Sou nova e passei por pouquíssimas casas. Cabem em uma mão, e não dá todos os dedos. Mas as que passei me marcaram demais. Fizeram algum bem, confesso. Mas foi cada tijolada na cabeça… Ando meio cansada de mudanças e reformas e decepções.

A incerteza continua e só o tempo vai dizer o que será construído.

Pode ser que eu ache um arquiteto bacana.

Pode ser que o muro seja erguido definitivamente.

Uma resposta para “Arquitetura”

  1. Debs disse

    Ando pensando seriamente em um fosso!!!
    :P

    Minha arquitetura só constrói barraco…

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.